Revista Sobre Ontens, Vol. 2007



SUMÁRIO

A Tabuleta de Maquilagem do Rei Narmer
Alam Arezi

Um Estudo das Crises Econômicas no Século XIX - O Caso da França
Juliana de Cássia Câmara

História do Cristianismo
Daniel da Rocha Junior

O Confucionismo
Vera Maria Benzak

O Daoísmo
Márcio Geiss

A Decadência da História Econômica e suas Perspectivas Atuais
Ana Paula Kazmierski
Juliana de Cássia Câmara



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A Tabuleta de Maquilagem do Rei Narmer
Alam Arezi


A arte é um modo de expressão - não existe a duvida quanto a isso, apenas se figuram formas de se entender como essa mágica se dá –, que em muitos momentos impulsionou grandes acontecimentos ao saber humano e as qualidades de uma civilização. O homem é o elemento necessário para a prática da arte, mas não vive somente por ela e também não vive sem ela, pois as razões que ligam o imaginário ao cotidiano se resumem numa busca pelo entendimento da vida e de tudo o que a circunda. Entende-se que existem motivos pelo qual o homem faz a arte, “algumas são produzidas simplesmente para que existam, outras para serem vistas”, mas o verdadeiro motivo de sua prática esta vinculado ao mítico íntimo de cada artista.

Na pré-história a sobrevivência era o bem mais necessário ao homem – hoje em dia isso se confunde com estabilidade financeira -, fazendo do dia uma impertinente busca por comida e sustento. Assim, “o homem, embora dependesse do seu ambiente para sobreviver, com sua cultura nascente, pôde explorar mais a natureza do que os outros animais”, deslocando o curso da prática da arte por um caminho ligado a existência humana; seus medos e anseios, crenças e razões. No entanto, devido à intimidade dos anseios da arte nesse período, se entende que explicá-las com a mentalidade contemporânea é um erro calculado e a única forma de se fazer isso; forma necessária a um entendimento parcial.

Entende-se que a pré-história é o período anterior ao surgimento da escrita, mas não necessariamente as formas de comunicação e a organização da sociedade, por isso sabe-se que muito de história nesse período, adquire comprovação apenas através da arqueologia e de procedimentos que tenham fatos palpáveis. Então, como se analisa um objeto pré-histórico sem o consentimento de informações da época sobre o mesmo? Deve-se tentar explicar a mentalidade da sociedade portadora do objeto e, de uma maneira antropológica e contextualista, formar opiniões acerca da necessidade de tal objeto para a mentalidade daquela sociedade; avaliando crenças, o cotidiano e os fatores sociais.

Assim, nessa perspectiva, escolhi um dos primeiros testemunhos da arte egípcia, a chamada “tabuleta de maquilagem do Rei Narmer”, tendo conhecimento sobre sua datação (cerca de 5.000 anos), mas nenhum outro conhecimento sobre a essência de sua realização a não ser que fora feita mostrando Menés (fundador da primeira dinastia) após a vitória sobre inimigos do baixo Egito. Entretanto, o objeto escolhido como análise, se situa na transição da história com a pré-história, no eventual momento do surgimento da escrita e sua adaptação as várias formas de cultura, sabendo que existem controvérsias quanto à datação da unificação do império Egípcio por Menés - evento que inicia a história egípcia -, como mostrado por C. W. Ceram em ‘ Deuses, Túmulos e Sábios’:

"Champollion, 5867 a. C.; Lesueur, 5770; Bökh, 5702; Unger, 5613; Mariette, 5004; Brugach, 4445; Lauth, 4157; Chabas, 4000; Lepsius, 3892; Bunsen, 3623; Ed. Meyer, 3180; Wilkinson, 2320; Palmer, 2224. Moderadamente essa data foi novamente recuada. Breasted data Menés de 3400 a. C., o alemão George Steindorff, de 3200, e as mais recentes pesquisas de 2900 a. C."

Porém, a qualificação do objeto como, histórico ou pré-histórico é um simples detalhe; tendo em mente que foi feito em uma época primitiva e, na pré-história de uma civilização, pois antes disso o Egito se dividia em duas regiões distintas, a do alto Egito - o vale do Nilo, caracterizada por uma região seca e de clima sempre quente – e a do baixo Egito – o delta, caracterizada por uma região úmida e bastante fértil. Também se sabe que nesse período pré-unificado, os povos de ambas as regiões viviam sob costumes sedentários agrupados em clãs, e formavam pequenas províncias independentes, denominadas nomos. Eram dirigidas por um chefe – nomarca -, possuíam uma capital e diversas aldeias, que sob constante conflito originaram a unificação dos reinos.


Figura 1, frente da tabuleta de maquilagem do rei Narmer.

Sendo assim, o fator histórico-social da época, leva a crer a “tabuleta de maquilagem do Rei Narmer”, é uma simples adoração ao unificador e primeiro faraó do Egito. E, pode-se supor que tenha sido feita pelos seguidores de Narmer, com o objetivo de perpetuar o fato. Contudo, numa perspectiva mais cotidiana, pode-se especular que tenha sido feita como uma ofensa a regularização da vida de ambos os ‘Egitos’, que antes divididos em pequenas ‘celas’ agora faziam parte de uma imensidão denominada reino e, sobre o domínio de um homem-deus, o faraó.

O desenho existente na parte frontal da tabuleta manifesta grandiosidade e exuberante talento do artista cujo significado subliminar se faz devido às várias maneiras de interpretação, ou seja, aparentemente existe o destaque a um homem cuja força em suas mãos – simbolizado pelo cajado – faz com que os demais estejam aos seus pés, permanecendo acima deles apenas um homem o qual a postura demonstra servidão, um pássaro acima da coroa, ao qual se pode atribuir o fator de deus abençoando-a, devido aos costumes zoomórficos e, ao fundo num outro paralelo, um indivíduo que apesar do tamanho teima em permanecer em pé, sendo entendido como a minoria rebelde e por ora desatenta aos olhos do faraó. Entretanto, rebeldemente pode-se especular que tenha sido feita com a simbologia inversa -como já afirmado- demonstrando a submissão forçada ao quais os nomos foram submetidos.


Figura 2, fundos da tabuleta de maquilagem do rei Narmer

Já a parte traseira da tabuleta exibe uma maior complexidade de tradução, podendo ser entendida como as classes definidas pela dinastia, levando em consideração que abaixo se situam os rebeldes, esmagados pelo touro, oprimidos pelo sufoco; no centro o povo que serve e, como símbolo de união do alto e baixo império o entrelaçar dos pescoços; no alto o faraó soberano e maior sob a proteção dos deuses e acompanhado pelos servos.

Na perspectiva de tradução, qualquer opinião convincente é válida, desde que ande de mãos dadas com o objeto analisado, mas não se pode afirmar com precisão um sentido leal ao que se olha; entender o objeto é parte de um entendimento da mentalidade de quem o fez, e no caso da “tabuleta de maquilagem do rei Narmer”, não se apresenta tão claramente as intenções de seu feito como um desenho datado em 15.000 a.C de um bisão em uma caverna. Por isso, “primitivo é um termo infeliz: sugere, erradamente, que esses homens representam a condição original da humanidade e adquiriu assim conotações emocionais contraditórias”, sendo que a arte evolui com a mentalidade do homem e, em alguns casos, se expressa nos tempos contemporâneos de forma ainda primitiva.


Bibliografia
Ceram, C. W. Deuses, Túmulos e Sábios. São Paulo, SP: Comp. Melhoramentos, 1959
Hauser, Arnold. História social da arte e da literatura. São Paulo, SP: Martins Fontes, 1998
Janson, H. N. História geral da arte. 2ª Ed. São Paulo, SP: Martins fontes, 2001
Mello, Luiz. Antropologia cultural. Petrópolis, RJ: Vozes, 1987

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Um Estudo das Crises Econômicas no Século XIX - O Caso da França
Juliana de Cássia Câmara

No estudo de uma crise econômica, o que deve ser levado em consideração ou tomado como ponto de referência? Para Jean Bouvier (1920-1987), historiador francês, ligado à tradição dos Annales, pioneiro sobre os estudos de história econômica do século XIX, o estudo das crises econômicas da França deste século deve tomar por referência a importância da história événementielle*, bem como dos fatos. É necessário objetivar nesta idéia, de que não há história sem uma corrente teórica, sem conceitos e hipóteses e sem conhecimentos econômicos. O acontecimento é muito diferente de um fato, que por sua ordem define-se como um pequeno acontecimento dado num sentido pronto e acabado.

Segundo Bouvier (1988), a volta dos esquemas abstratos se dá quando os fatos, que competem aos historiadores, são explicados pelos economistas de forma detalhada, quando então se recorre à economia. Economistas e historiadores não possuem o mesmo método, nem tem o mesmo ponto de vista. O economista por sua ordem privilegia os fatos, lida com a conjuntura (sistema econômico, por exemplo) e o historiador analisa esses fatos através de uma teoria, ou seja, parte do particular (a estrutura, a economia, por exemplo) para o geral (a conjuntura). É por isso difícil pensar a distância que separa um historiador de um economista, quando no nível das teorias é que poderá o historiador desprender o desenrolar das crises. Os ciclos econômicos, por sua ordem são díspares, contraditórios, visto que cada qual tem o seu tempo, o seu momento e o seu ciclo de duração, assim como na teoria, quando se intercala as disparidades monetárias ou não monetárias. A teoria mesmo sendo abstrata, depende de outros pontos de análise, como a política que vai refletir na estrutura, ou seja, na sociedade. No trabalho de Marx, de irrecusável análise, ele dá mais importância às disparidades não monetárias, incluindo em sua tese o uso da dialética, ou seja, a análise crítica de diferentes concepções, que em contradição, na justaposição de idéias desenvolvem a tese e a antítese, de modo a resultar na síntese; além da explicação dos fenômenos econômicos e de outros registros metodológicos. Seja num aparato marxista, ou de uma outra corrente, é fundamental o trabalho do historiador sob um enfoque teórico. Segundo Bouvier (1988), o historiador das crises analisa os fatos na relevância da sua cronologia, datação e lugar no espaço, relacionados a outras bases que não apenas econômicas, não apenas aos índices quantitativos. O historiador no trabalho sistemático de análise desses fatos deve levar em conta quais as disparidades mais importantes ao seu trabalho, reconhecendo que a teoria nem sempre lhe vai ser favorável, condizente ao estudo das crises, sem que para isso, antes ele estabeleça uma relação entre as crises, nos seus níveis, aspectos e elementos. O historiador para criticar, fazer um elogio às teorias econômicas, ele precisa conhecê-las, saber o momento em que foram produzidas, ter conhecimento da história.

Com relação às crises econômicas francesas até os anos de 1870, estas são mistas. Após 1870, essas crises mostram-se na necessidade de se ter uma produção crescente, quando nelas condizem à queda de preços, na medida de que as classes populares consumiam os produtos acessíveis a sua condição, ao seu bolso. Sendo assim, os fatos que explicam tal disparidade, não se acentuam mais em níveis agrícolas, mas agora ligados às modalidades do crescimento bancário industrial (os empréstimos). Bouvier (1988) critica a confusão que se dá entre contemporâneos e economistas que classificam as crises comerciais do século XIX do mesmo modo que classificam as crises econômicas da década de 1870. Onde se dá então a coerência de que cada uma delas corresponde ao seu ciclo? Para Bertrand Gille, as crises ocorrem quando não mais se investem capital em dinheiro, na falta de circulação do mesmo e pelas altas taxas de juros cobradas pelos bancos. Para Labrousse, no seu estudo sobre a crise e a depressão francesa nos anos de 1840 a 1851, o modelo de crise revela-se na estrutura industrial que domina a sociedade francesa da época: a têxtil e não mais a metalúrgica. Posterior a década de 1870, as crises revelam-se na diminuição de preço dos produtos têxteis, quanto dos produtos industriais. No entanto como afirma o autor, a conjuntura agrícola não desaparecerá da conjuntura econômica. Com relação à disparidade monetária, acreditava-se que a estrutura bancária pudesse favorecer o crescimento e cessar de vez o ciclo das crises econômicas e comerciais, sendo de modo que a classe bancária provocou em certo sentido o crescimento e também o retorno à crise, quando se deu então a diminuição nos créditos bancários. O estudo de uma ‘craque’ como coloca o autor, deve ser feito sob dois ângulos: dos seus elementos e a ligação entre uma queda de bolsa e o ciclo da sua expansão e retração. Sobre tal comportamento vai figurar o banco no uso dos seus empréstimos e na cobrança de juros, que vai acelerar o processo de crise em empresas e firmas. É no processo conjuntural de estudo dessas crises que se deve assentar o trabalho do historiador. No caso do segundo semestre de 1881, respondendo a lógica do mercado, alguns preços decaem sob a circunstância de não se venderem certos produtos no mercado. Sob essa análise, é impossível estabelecer o que realmente levou à crise: trata-se dos sintomas do crash, da política bancária com seus empréstimos, do consumo popular ou do mercado de emprego? Sobre cada crise, incidiu um fator que foi determinante. Talvez nessa análise, decaia sobre o historiador a indecisão em definir as “disparidades dominantes”.

Recorrer às teorias, só seria válido, se elas cobrissem as lacunas de informação, fornecendo dados e datas relevantes à estrutura de preços, investimentos, lucros, exportação? Não lhe pode ser possível considerar uma crise idêntica à outra. No estudo do acontecimento desses craques, deverá estabelecer a idéia de intercalação, passagem de um ciclo a outro. Na Crise de 1929, por exemplo, que se repercutiu a nível mundial, devido também ao período entre guerras, o qual estava se vivenciando, percebendo inclusive a quebra e decadência de muitos países que sentiram os reflexos na sua estrutura, incidiram fatores como o capitalismo liberal, a especulação de preços nas ações da Bolsa de New York, a política de estocagem governamental a fim de se garantir os preços; fatores esses que os economistas passam rapidamente, sem estabelecer uma análise profunda dos seus elementos, ao contrário do historiador. É por isso que o trabalho do historiador fundamenta-se não apenas em interpretar os objetos e as palavras; ele deve também pousar sua visão na essência das ‘entrelinhas’, daquilo que não aparece escrito e nem está edificado e construído, sabendo julgar, que a sua interpretação não depende unicamente de um fator econômico. É preciso considerar outros fatores que não apenas de ordem econômica, e analisar a própria organização das fontes, sendo que cada reinterpretação repousa numa interpretação que é própria da época e contexto do qual foram produzidos.

LE GOFF, J. e NORA, P. História: Novas Abordagens. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988.

* événementielle: termo em francês, o qual não existe tradução para o português, mas que pode ser utilizado como história “acontecimental”.

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História do Cristianismo
Daniel da Rocha Junior

O desenvolvimento cristianismo entre os séculos I a IX 

O objetivo de Paul Jhonson em seu livro “A historia do cristianismo” é descrever e analisar o desenvolvimento da Igreja Cristã durante os vários séculos de sua existência. A presente resenha tem a intenção de apontar as principais idéias dos três primeiros capítulos desse livro.
Um ponto que fica bem claro no texto lido é que em nenhum momento do período analisado o cristianismo se mostrou uma religião uniforme, sem divisões internas e unidas na luta contra seus inimigos externos. Muito pelo contrário durante os primeiros nove séculos de sua existência a comunidade cristã esteve dividida sendo que cada facção interna lutava para se impor sobre as demais.

O primeiro desafio do cristianismo foi manter-se vivo e futuramente se sobrepor ao judaísmo. Jhonson inicia sua discussão sobre o cristianismo a partir desse ponto. A Igreja crista se originou dentro do judaísmo palestino. Por essa razão é extremamente importante Ter uma idéia a respeito da religião judaica existente nos dias de Jesus.

O judaísmo do primeiro século da era cristã se tratava de uma das religiões extremamente exclusivistas, apocalípticas e belicista. Os judeus criam que eram propriedade do Deus verdadeiro e esse Deus iria alterar a ordem social e política estabelecida através de uma intervenção sobrenatural que culminaria com o aniquilamento da presente ordem estabelecida e daria início a uma nova era onde os eleitos (os judeus) se tornariam à classe dominante do mundo. Essa intervenção divina seria efetuada através da pessoa do Messias (salvador), um líder político, religioso e militar. Esse conduziria os judeus à vitória sobre as forças do mal.

Nem todos os judeus moravam na Palestina. Muitos deles estavam espalhados por diferentes pontos do Império Romano. Na realidade o número de judeus que viviam fora da região palestina era maior do que seus conterrâneos palestinos. Esses dois grupos divergiam quando a estratégia de proselitismo. Os judeus helenistas, como eram conhecidos os judeus da diáspora geralmente eram cidadãos ricos, receptíveis à cultura greco-latina e viam o Império como agente facilitador para a expansão de sua ideologia religiosa. Os judeus da palestina, ao contrário, eram retrógrados, xenofóbicos e em sua maioria viam na guerra armada à única forma de concretizar seus ideais político - religiosos.

O cristianismo surge dentro desse contexto. Por essa razão o primeiro desafio dessa religião infante é sobreviver dentro desse conturbado mundo religioso e depois conseguir superá-lo. Para conseguir manter-se vivo no concorrido e conturbado contexto religioso judaico, o cristianismo contou apoio de judeus influentes, tanto dentro do Palestino quanto fora dela, que se tornaram cristãos. Esses se tornaram os primeiros líderes da Igreja e tiveram grande influência sobre a mesma.

Essa liderança, porém se tornou um grande obstáculo quando o cristianismo, a partir do apóstolo Paulo, começou a se tornar uma religião internacional e inter-racial. Nesse momento os judeus começaram uma reação que ameaçou a sobrevivência do cristianismo. O cristianismo apenas conseguiu sobreviver a essa ameaça e se tornar uma religião internacional porque a Igreja cristã de Jerusalém envolvida na revolta judaica contra o Império Romano foi destruída no ano 70.

Se durante os primeiros quarenta anos de sua existência o cristianismo se dividiu basicamente entre judeus e gentios nos próximos séculos as divisões internas do cristianismo se multiplicaram em proporções inimagináveis para os cristãos do primeiro século. De acordo com Jhonson, isso se deveu principalmente devido à vocação de atrair os diferentes grupos sociais e culturais contido dentro da ideologia cristã.

A existência desses diferentes grupos sócio - culturais no interior do cristianismo levou a um problema que tem desafiado a Igreja ao longo dos séculos. Os diferentes grupos de cristãos, preocupados em buscar uma resposta racional a sua fé encontravam diferentes alternativas para explicar a verdade. A acomodação dessas diferentes idéias e a formação de um sistema teológico e ideológico próprio foi o segundo desafio da Igreja.

Para responder a esse desafio a Igreja se preocupou em instituir um cânone dos escritos cristãos bem como em estabelecer uma hierarquização mais complexa em seu interior. Tanto o cânone quanto a hierarquização da Igreja estavam ligados a um fator, a origem apostólica.

Dessa forma a Igreja estabeleceu que apenas documentos escritos pelos apóstolos originais ou a alguém diretamente ligados a esses teriam valor normativo nas questões religiosas ou teológicas. Quanto à supremacia das diferentes congregações, seriam considerados importantes aqueles que tivessem sido originalmente dirigidas por um dos primeiros vultos cristãos. Segundo essa idéia, esses apóstolos que haviam recebido autoridade diretamente de Cristo ao lhe impor as mãos transferiram esse poder aos seus sucessores graças à transmissão feita através do mesmo rito.

O surgimento e existência de novas heresias durante os primeiros séculos do cristianismo foi um poderoso fator na criação de um cânon ortodoxo, bem como da progressiva hierarquização da Igreja. Esse processo de hierarquização se completou com a oficialização do cristianismo no início do século IV por parte do imperador Constantino.

Constantino se tornou imperador no início do século quatro, após derrotar Majêncio na ponte do rio Mílvio e no ano 313 juntamente com seu co-imperador Licínio tornou a religião cristã oficial dentro do Império Romano. Esse ato pode ser considerado como a conseqüência lógica de um processo que vinha se desenvolvendo desde a metade do século III. Nesse momento os cristãos eram um grupo numeroso e ao mesmo tempo muito bem organizado. Eram muito mais homogêneos em suas práticas e posições diante do Império. O cristianismo, nesse período se tratava de uma opção universalista à antiga e decadente religião civil romana. Nesse momento o velho Império tinha de tomar uma decisão: exterminá-la ou oficializá-la. Constantino optou por seguir o segundo caminho.

Constantino era um líder de visão reconciliadora e foi com o objetivo de manter vivo o Império romano que elaborou o edito de Milão. O problema é que a Igreja, agora apoiada pela máquina estatal, tratou de firmar-se como representante única do cristianismo e passou a perseguir aqueles que representassem ameaça a seus ideais de supremacia. A máquina estatal muitas vezes foi colocada a serviço da ortodoxia, por entender que uma ameaça à mesma representava também risco a ordem estabelecida.

Essa relação entre Igreja e Estado fez com que os papéis de liderança eclesiástica e civil fossem de certa forma confundidos e unificados. Nos dias de Constantino o imperador muitas vezes se envolveu nas disputas teológicas e religiosas para conseguir manter a ordem na Igreja. Por outro lado muitas vezes o bispo romano, bem como bispos de outras sedes episcopais importantes tomassem decisões no campo civil.

Com a oficialização do cristianismo católico a divisão entre o clero e o laicato cresceu de maneira vertiginosa. Os líderes cristãos se tornaram verdadeiros representantes de poder político, financeiro e principalmente aqueles que liderassem sedes episcopais de cidades importantes. Na segunda metade do século IV a Igreja se tornara a maior força do mundo romano ocidental rivalizando apenas com o imperador que então estava instalado em Constantinopla.

Nesse processo de ascensão da Igreja Cristã, a Igreja de Roma foi a maior beneficiária. O poder do bispo da cidade de Roma sobre as demais sedes que já era grande aumentou mais ainda. Desde seu início a Igreja de Roma era considerada rica. Além de sustentar um grande número de funcionários ligados à estrutura da Igreja ela prestava assistência a 1500 órfãos e viúvas. Além disso, nos debates teológicos que ameaçaram dividir a Igreja nos quatro primeiros séculos, o bispo romano sempre esteve ao lado da ortodoxia.O apoio do Imperador no quarto século apenas contribuiu mais um pouco para que a força da Igreja e do bispo de Roma crescesse mais ainda.

Nem todos cristãos viam com bons olhos essa ligação com Império e uma separação entre o laicado e o clero. Isso ocorreu principalmente nas regiões mais distantes das sedes católica. O século IV foi marcado pelo recrudescimento da defesa das idéias da Igreja Católica por um lado e da reação de cultos heréticos bem estabelecidos nas periferias do Império. Jhonson destaca que essas disputas revelam muito mais do que simples querelas religiosas. As mesmas são sinais grupos cristãos periféricos ao cristianismo oficial representavam o desejo de sobrevivência de uma cultura provincial para que o Império era considerado universal e ao mesmo tempo parasitário.

Jhonson deixa claro que a diversidade religiosa e as divisões internas do cristianismo não impediram que o mesmo tivesse uma reação enérgica e eficiente contra seus inimigos externos. Isso ficou bem claro na reação cristã à tentativa de Juliano o “apóstata” ressuscitar a religião romana estatal. Tal campanha foi desastrosa e resultou em completo fracasso. Nos dias de Juliano o Império se tornara cristão e não retornaria de maneira alguma ao antigo sistema religioso.

Os próximos séculos (V - IX) representaram um período de reestruturação do Império Romano. A parte ocidental do Império se fragmentou e fundiu-se ao mundo germânico dando origem a uma nova civilização. O lado oriental se rendeu ao Islamismo. Dentro dessa realidade a Igreja Romana se adaptou continuou viva e graças à força do papado, a união com o Império Franco-Carolíngeo e teorização política da teologia agostiniana se tornou o maior poder do período conhecido como Idade Média. Esse poder seria decisivo na formação da Europa moderna.

Resenha:
Jhonson, P. História do Cristianismo. Rio de Janeiro: Imago, 2003.

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O Confucionismo
Vera Maria Benzak

Na China surgiram várias escolas filosóficas, e dentre elas podemos citar Confucionismo, Taoísmo, Moísmo e Legismo. Cada doutrina dava importância a determinados exercícios e atitudes, e, no entanto cada escola possuía seus princípios filosóficos, defendendo assim cada qual sua concepção. Para entendermos melhor essa idéia de pensamentos chineses, notamos que a base de todos os sistemas filosóficos chineses existentes era o conceito de “Dao”, e essa palavra em seu sentido habitual significava caminho.

Uma dessas escolas que teve relevante importância foi o confucionismo, cuja origem baseia-se nos ensinamentos de Confúcio. Ele pretendeu regenerar a sociedade de sua época pelo ritual e pela moral. Nessa escola Confúcio também não pretendeu inovar, apenas desejava conservar as tradições do passado. O mesmo também ressalta a importância de um elemento muito importante que é a educação, e sem ela jamais poderíamos chegar a conhecer as excelências dos acervos de conhecimentos. Assim há uma necessidade da educação, então:

“Para o homem superior, a única maneira de civilizar o povo e instituir bons costumes sociais é pela educação. Por isso os antigos soberanos consideravam a educação como o elemento mais importante, em seus esforços por implantar a ordem no país.”
( Liji, ou Manual dos Rituais, capítulo 18, por Confúcio)

No entanto, percebemos que a educação era indispensável, pois era uma maneira de civilizar o povo para haver certo ordem no país e também para Confúcio todo o individuo passa por uma escola, pois é a partir da educação é que se estabelecem os costumes sociais. Confúcio é considerado pela China como o “sábio completo”, o primeiro mestre que atinge a santidade e Mengzi foi o “segundo santo” quem desenvolveu as idéias básicas do confucionismo.

Mengzi representa o lado idealístico do confucionismo, na qual o mesmo considerava que toda a natureza humana era essencialmente boa. Assim ele pregava a conduta humana baseada em quatro virtudes, “Ren” virtude da benevolência, “Yi” retidão imperativa de conduta, “Li” onde o altruísmo e a renúncia são bases do rito Li e “zhi” que é a possibilidade de distinguir o bem do mal. Mas também Mengzi reconhecia que embora toda natureza humana fosse originalmente boa, nem todo o homem poderia tornar-se um sábio, em virtude da coexistência, que são os elementos os quais não são bons nem maus, mas se não governados podem ser nocivos.

Segundo Mengzi, todos os homens possuem um coração que não suportaria ver o sofrimento alheio, no entanto ele prova-o de fato, pois uma pessoa ao ver uma criança que vá cair no poço, se sentirá ansiosa e alarmada, portanto nesse caso, o que levara alguém a tais sentimentos é apenas a comiseração pelo próximo. A compaixão identifica-se de acordo com a virtude da benevolência (Ren), pois um ser incapaz de piedade para Mêncio não é humano. Entretanto no Mengzi shu (livro de Mêncio), ele cita que:

“(...) Gaozi disse: a natureza humana é como a água correndo: quando em curso aberto ao leste, ela flui para o leste; quando uma corrente é aberta ao oeste, flui para oeste. A natureza humana é mais inclinada para o bem tanto para o leste quanto para oeste.” mêncio responde: a água não tem preferência pelo leste ou pelo oeste, mas não tem uma preferência pelo cimo ou para baixo?” ( Mengzi Shu – Livro de Mêncio)

Sendo assim, como ressalta Mengzi, não há nenhuma pessoa que não seja boa e nenhuma água que não flua para baixo. mas também se o homem possui as quatro qualidades inatas(Ren, Yi, Li, Zhi), é preciso que ele aperfeiçoe essas virtudes sem obscurecer-lhes o desenvolvimento, pois o progresso no cultivo dessas qualidades é indispensável.

A terceira figura da escola confucionista, foi o filósofo Xunzi, que representa o lado realista do confucionismo, e este é totalmente em oposição ao idealismo de Mengzi. Xunzi tratou de quatro conceitos principais: a natureza humana (Xing), os ritos (Li), a retificação dos nomes (Zheng Ming) e o céu (Tian). Para Xunzi a natureza humana é originalmente má e o que o homem tem de bom é artificial, sendo assim o homem já nascia amando os lucros e em conseqüência disso, há o desenvolvimento do espírito de luta e roubo, nesse caso o homem já nascia com enfermidades morais e com ódio, e se a fé e a devoção inexistem Xunzi ressalta que:

“Se o povo agir de acordo com a natureza humana e seus desejos, eles inevitavelmente lutarão, arrebatar-se-ão, violarão as normas e agirão com violento abandono’”.
( Xunzi Shu – Livro de Xunzi)

O que Xunzi defendia então era uma filosofia da cultura, pois sua tese era de que todo o bem e valor do ser humano eram criados pelo homem, onde é através da educação que esse ser humano se tornaria bom, ou seja, apenas depois de transformados por professores. Sendo assim bom é o produto humano. E em relação à retificação dos nomes, (Zheng Ming) seria um fator de ordem na sociedade, onde deformar os nomes era crime grave com nefastas conseqüências sociais. Quanto à religião, o “céu” seria um conjunto de forcas naturais, sem quaisquer qualidades morais.

Portanto, os confucionista eram conhecidos como os letrados ”Ru” e eram especialistas no ensino dos clássicos, todas as obras que eles utilizarão em seus ensinamentos tornaram-se “Cânones”, onde a moral confuciana é fruto de uma permanente reflexão sobre os homens. Na época de Confúcio, a sociedade encontrava-se em transição, onde o feudalismo desmoronava, mas nenhuma ordem sólida havia o substituído. Enfim o objetivo principal da filosofia na China era justamente impedir toda discrepância entre o que o homem faz e as leis imutáveis da verdade. Assim a doutrina de Confúcio estabeleceu os princípios filosóficos básicos da civilização chinesa ate o século XX, para eles eram os ritos que marcavam a linha divisória entre o superior e o inferior, sendo assim não mediam os valores através de leis ou dogmas religiosos.

Bibliografia:
JOPPERT, R. O Alicerce Cultural da China. Rio de Janeiro: Avenir, 1979
MORTON, W. China - História e Cultura. Rio de Janeiro: Zahar, 1986.

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O Daoísmo
Márcio Geiss


O Tao (Tau) para Lao-Tse (604 a.C) Id. Dào[1] possui um significado para além daquelas impostas pela etimologia, sua definição filosófica que ultrapassa níveis de acepções mística através dos fatos e de fluxos de acontecimentos ao que lhe é dada pelas circunstancias que norteiam a existência humana;

(...) “o taoísta deve permanecer imperturbável diante dos acontecimentos bons ou maus. Esta indiferença não é uma atitude pessimista; designa apenas o propósito de deixar a natureza agir”[2],

O que em certa medida ditam por si só o caminho religioso a ser seguido, nomeadamente a espontaneidade/simplicidade e naturalidade são aspectos que se diferenciam em detrimento/oposição do Confucionismo, que assim sob a ótica Taoísta é visto sob uma estrutura pedagógica em sistematizar o autoconhecimento do individuo, em orientá-lo/educá-lo à práxis de um conjunto de valores/virtudes, que ira determiná-lo e ditar o seu comportamento, o Dào inicialmente buscava apenas a atitude de preservação pessoal e certo isolamento

“A partir do século I a.C. o Taoísmo tornou-se uma religião, quando o povo passou buscar no Tao um processo para prolongar a vida, para evitar a morte. Surgiram então numerosos mosteiros de homens e mulheres, templos com verdadeira multidão de deuses que se ofereciam à adoração dos fiéis, sacerdotes que diziam possuir poderes mágicos, prometendo aos crentes a restauração da juventude, a garantia da imortalidade da alma e do corpo”. [3]

Assim a pratica dos ritos taoísta adota um “ciclo agrícola que refletem a preocupação com os ancestrais, a saúde e a prosperidade. (...) a renovação cósmica (jiao) é realizado no inicio do inverno, e a cerimônia do Ching Ming, na primavera (...)” [4]. O Taoísmo em certa medida condensava junto ao Confucionismo um desejo de uma “existência harmoniosa” [5], mais uma vez a síntese/subterfúgio verbal ocorre (...) ” por isso, o Sábio procura compreender as leis da Natureza, como se rege o mundo, e adapta-se a esse padrão. O Sábio não interfere; abandona-se ao ritmo universal, harmoniza-se com a Verdade, com a Essência, com o Fundamento. E, por que não se imiscui nesse ritmo universal, tudo se realiza da maneira certa. É o conceito que se define por três palavras: Wei wu wei (Agir, sem agir), (...) não se confunde com a inação absoluta. Trata-se apenas de uma não interferência no curso natural dos acontecimentos. É uma atitude de harmonia com o Dào, que “permanece sempre em inércia e, no entanto, tudo realiza”. ” [6]

O Dào no sentido de reforçar a espontaneidade natural do não-agir Taoísta acarreta o desenvolvimento do conhecimento imediato (...) “o Sábio não devera desenvolver a cultura ou a inteligência, mas imergir num estado de vacuidade mental, a fim de deixar campo livre à intuição e de não introduzir em sua alma a perturbação da multiplicidade, inevitável quando o conhecimento se torna vasto demais (...) esta não equivale, porém, a Ignorância (...) mas atingir um estado em que estará como (...) investigando as leis fundamentais que presidem à vida (...) o abstrato absoluto, imutável, que lhe deu origem” [7], conduzindo a uma inclinação à afirmação de um único Deus de caráter pessoal e transcendente e recíproco ao homem, inteligível ou não, mas assim como o Confucionismo, o Taoísmo teve sua porção pragmática aplicada na existência terrena pois (...) “teve igualmente a intenção política de servir de modelo aos governantes”[8] .

O Dào visto como um movimento da essência atualizada pela existência, viabilizou uma mentalidade de empatia, e o que hoje parece uma ficção inevitável acerca do “eu” e dos valores humanos, tendo-se em vista que somos todos responsáveis por todos nós assim como Confúcio agregou esta responsabilidade no seu sistema pelo viés da práxis e do conhecimento e auto-educação, no taoísmo isso se da na ascese espiritual. “Não tive mais consciência de verdades ou erros, de utilidades ou inutilidades, em relação a mim mesmo ou aos outro; não tive mais consciência de ter um mestre ou ser um discípulo; o exterior e o inferior confundiram-se e, a partir daquele instante, meus olhos foram como minhas orelhas, minhas orelhas, como meu nariz, meu nariz como minha boca. Todos os sentidos eram idênticos e tive a impressão de que o espírito se imobilizava, o corpo se desagregava e os ossos e a carne se dissolviam. Deixei-me levar de leste a oeste pelo vento, como uma folha ou um galho seco... finalmente, não soube mais se era eu quem sustinha o vento ou o vento o que me transportava...” [9]

E não só com a relação a China, mas a todas as outras civilizações levando-se em conta o momento e o pensamento filosófico e como este refletia para cada Homem a sua idéia sobre sua História de si mesmo.

Notas:
[1] Etimologia. Chn. (Beijing) dào 'caminho' que, depois, adquiriu os sentidos simbólicos de 'razão primária e palavra ou logos; reto curso de procedimento'.In Houaiss Eletrônico.
[2] In. História da Civilização. Medina, Sinval Freitas. Colaboração. Medina, Aldorema Freitas. Org. Magalhães, Álvaro. Editora Globo S.A. Porto Alegre – RS. 1979. p. 243.
[3] Idem. p. 343.
[4] Enciclopédia Compacta de Conhecimentos Gerais. Editora Três. Religião e Filosofia. As Religiões da China e do Japão. p. 144. s/d.
[5] Idem.
[6] In. Joppert, Ricardo. O Alicerce Cultural da China. Escolas do Pensamento Chinês (03), p. 13. 1979. Editora Avenir. Rio de Janeiro.
[7] Idem. p. 13.
[8] Ibidem. p. 14.
[9] Ibidem. p. 17.

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A Decadência da História Econômica e suas Perspectivas Atuais
Ana Paula Kazmierski
Juliana de Cássia Câmara


A História Econômica enquanto ciência, na idéia de quantificar os objetos históricos, e de também qualificá-los, exerce importante papel na visão de mundo do indivíduo, quando tenta legitimar através dos seus índices, uma representação do real. Mas então porque a produção em História Econômica, dentro das suas reais perspectivas, encontra-se em "decadência"?A partir da 3ª Geração dos Analles inovam-se os enfoques historiográficos, quando a Economia passa a perder espaço para outros estudos históricos, que não apenas relacionados a ela. Pode-se dizer também da distância entre historiadores e economistas, bem como também da própria idéia de uma história reducionista, que segundo Braudel pudesse explicar a estrutura de uma sociedade a partir de um fator econômico. É o que se aplica ao período pós-guerra, onde determinadas sociedades que adotaram o socialismo ou o capitalismo, tiveram sua condição social e estrutural interpretada em função do modelo econômico escolhido. A história econômica apóia-se no pressuposto de que somente o fator econômico possa explicar a realidade de uma determinada sociedade, sem levar em consideração outros aspectos e fatores que também possam condizer a ela; como por exemplo, o modelo soviético que não deu certo na China, que mais tarde veio a adotar o socialismo como sistema econômico. Portanto, nem todos os modelos econômicos adotados por alguns países foram apropriados a sua condição, ou seja, sequer deram certo. Para Labrousse a história econômica era capaz de abranger todas as perspectivas dentro do espaço da longa duração, se na existência de índices quantitativos a fim de amparar sua visão de mundo. Villar contesta as variáveis de produção, força de trabalho e consumo como adaptáveis as condições de existência. Kula critica ambas as análises e defende que é necessário que a própria sociedade entenda como a sua economia funciona e qual a sua necessidade social.

Segundo Berend, após a Segunda Guerra, os países buscam resolver qual modelo econômico será ideal a sua realidade, de forma que possam ter em mente uma visão de futuro. Mas em que medida e em quanto se torna viável uma proposta pautada num modelo econômico para uma realidade social? E que previsão de futuro ela poderá oferecer?É, portanto, nessas condições que a história econômica, por se validar como "índice do real", acaba por se enterrar como uma teoria, pois não só em base de índices quantitativos, mas em função de outros fatores, que não econômicos se faz a História. É a partir de uma atitude reacionária a idéia de Braudel, na 3ª Geração dos Analles, que se vê incorporada a dinâmica histórica, outros estudos que não ligados aos índices quantitativos. Como afirma Furet (1988) "... o homem não é somente um agente econômico" (p. 61), mas produto de outras relações e interações sociais. Por isso, a visão do "Porão ao Sótão", indicado por Burke (1990), na expectativa de uma história também ligada a cultura, a política, a antropologia, a biologia, a geografia, a psicologia, quando se tem estudos relacionados a uma História do medo, da infância, do livro, da mulher, da morte, antes jamais redimensionados ao campo historiográfico. Nessas presentes condições, as perspectivas atuais, para os estudos em História Econômica, face ao declínio nos próprios estudos acadêmicos, no seu isolamento como disciplina (o curso de Economia) e na sua desvalorização em relação à História, é válido lembrar que muitas das teorias que se construíram de determinadas sociedades em dadas épocas, se fizeram e se fazem em função de um fator econômico, a fim de se estabelecer estatisticamente dados da realidade social, econômica e política, que possam traduzir um pouco da realidade vivenciada pelo seu povo; como por exemplo, apresentar um índice de quantos negros chegaram ao Brasil, qual era a população de São Paulo em meados do século XIX, a oscilação no preço de compra e venda de escravos, etc. Em meio a este movimento, observa-se também o enlace da economia com outras ciências, como a sociologia e a antropologia, como forma de amparar sua construção teórica e quantitativa de seus estudos. Mas de que modo então amarrar a história econômica a outras ciências, a fim de se obter uma interpretação mais sólida e consistente? Como prescrever um estudo quantitativo com base em fósseis, a respeito dos primeiros hominídeos que habitaram a Terra? Como afirmar que dentre 100 pessoas que assinaram um abaixo assinado contra o Aborto, por exemplo, 50 delas sabiam o que estavam assinando?

Levando em consideração de que ela não representa um único índice do real, e que não possa ser introduzida como verdadeira racionalidade econômica, vista pelo lado das lacunas que não possam ser explicados e preenchidos por ela, a história econômica continua sendo importante aparato, para outras ciências, em função dos índices e dados levantados por ela estatisticamente, como fins de auxílio na análise e interpretação de um dado objeto histórico, como por exemplo, nos dados do Censo, de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), de IMF (Índice de Mortalidade Infantil), que se fazem em função de um fator econômico.

REFERÊNCIAS

BURKE, Peter. A Escola dos Analles 1929-1989. A Revolução Francesa da Historiografia. São Paulo: Unesp, 1990.
CARDOSO, Ciro Flamarion, VAINFAS, Ronaldo. Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Elsevier, 1997.
LE GOFF, J. e NORA, P. História: Novos Problemas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988.